Desde quando chegamos na Itália um dos nossos sonhos era conhecer a Sicília. Como estamos morando no Sul, a 1h30 de Nápoles, tudo já se torna mais fácil e barato. Chegamos a estudar as opções de transporte, mas ficamos adiando e adiando essa viagem, até que um amigo nosso apareceu em casa e as coisas foram bem diferentes do que havíamos planejado.

Ele estava passando de carro pela nossa região e nos ligou para ver se queríamos sair de noite aqui em Sapri para tomar uma cerveja e bater papo. O levamos para um dos poucos bares da cidade e começamos a falar sobre fazer uma viagem rápida e barata aqui pela região. O plano de um bate-e-volta para Matera, uma cidade próxima daqui e que nos tomaria apenas algumas horas do dia, mudou drasticamente para: “Que tal irmos para a Sicília de carro amanhã?!”.

Feito. Ele dormiu em casa e no dia seguinte preparamos uma mochila com uma troca de roupa, uns lanches para as primeiras horas e fomos em direção à Sicília, sem saber muito bem o que esperar. Não conhecíamos a estrada muito bem, nem o caminho ao certo, mas pesquisamos algumas coisas e fomos.

Condições das estradas

Trajeto que fizemos saindo de Sapri em direção à Sicília

Foram mais ou menos 1.300 km (ida e volta) em estradas muito boas e muito bem sinalizadas. A única preocupação era o gelo – coisa que nós, como bons brasileiros, jamais imaginaríamos que seria algo a se pensar! Estamos no inverno, então muitos trechos – principalmente os que estão em uma altitude elevada – nessa época estão cobertos por neve e isso torna obrigatório o uso de correntes nos pneus. Não sabíamos disso.

Quando começamos a subir a montanha, ficamos preocupados: “E se tiver gelo? E se ficarmos presos na neve? E se tiver nevasca?”. Vimos alguns montinhos brancos nas beiradas e no topo das montanhas ao redor, mas o caminho estava livre, ainda bem!

Montanhas com neve e o medo de ter gelo na estrada mais adiante

A estrada que pegamos é a Autostrada A3 Napoli-Reggio Calabria, uma super estrada onde você consegue guiar por quilômetros e quilômetros, a 120 km/h, sem fazer qualquer desvio no caminho. Dificilmente essas estradas passam por perímetros urbanos, então são bem rápidas!

Durante o trajeto, uma vez ou outra se passa por um pedágio, que aliás é bem diferente, pois você só paga o trecho que andou, isto é, você passa por um primeiro guichê e apenas retira um papelzinho que será pago no próximo guichê, quilômetros depois.

Imprevistos no caminho

Pelo menos tínhamos uma vista legal para apreciar enquanto esperávamos o carro ficar pronto

Tudo estava indo super bem! Não chovia, não tinha gelo no asfalto, mas aconteceu o que a gente menos esperava: o pneu furou (fuéim). É, sabe quando você vê aquelas pessoas na beira da estrada se ferrando com um pneu furado? Nessa ocasião, era a gente. Fomos avisados por um motorista que passava, então nosso amigo conseguiu dirigir por mais alguns metros até conseguir estacionar numa espécie de estacionamento à beira da estrada.

Por sorte, lá tinham dois caras que nos ajudaram e ligaram para um mecânico, que nos buscou de guincho e nos levou para uma oficina. Você deve estar se perguntando por que não trocamos nós mesmos o pneu. Bom, não conseguimos achar as ferramentas para fazer isso e acreditamos que o carro não tinha essas ferramentas. Mandamos bem mal!

Na oficina levou creio que 1h para resolver tudo e infelizmente gastamos uma grana inesperada, mas estávamos de bom humor e sabemos que imprevistos acontecem. Isso tudo é para dizer que às vezes essas coisas acontecem, então é sempre bom ter um dinheiro de emergência com você e, se alugar um carro, verifique se nada está faltando!

Uma parada que vale fazer

Um pedacinho da praia de Tropea

Se você está de carro fica muito fácil fazer as paradas que quiser para conhecer outras cidades no caminho. Se estiver na Itália no Verão, pare em Tropea! É uma praia que fica bem agitada na alta temporada e a paisagem é maravilhosa! Infelizmente, fomos no inverno, então só demos uma paradinha porque sabíamos que valeria a pena mesmo assim.

Cruzando de balsa do continente para a Sicília

Vista do andar de cima da balsa (traghetto)

Para chegar na ilha da Sicília é necessário pegar uma balsa, o chamado Traghetto, que sai de uma cidade chamada Villa San Giovanni, ao lado da cidade de Reggio Calabria. A balsa é gigante, com mais de um andar,  lanchonete, poltronas e banheiro. É um bom momento pra fazer uma pausa e se esticar. Nós já estávamos há 4h na estrada, então foi ótimo descer do carro.  O bilhete de ida e volta custou cerca de 70 euros, o que dividimos em 3 e ficou bem mais leve.

Nosso roteiro na Sicília

Vista do quarto do hostel em Palermo

Quando você atravessa a balsa, chega na cidade de Messina, já na Sicília. Parece que lá é super turístico também, mas fizemos apenas uma parada rápida para comer uma pizza e continuamos a viagem, assim poderíamos dormir em Palermo na nossa primeira noite. De Messina a Palermo foram mais 2h30 de viagem, então, no total, ficamos mais ou menos umas 7h na estrada no 1º dia, contando com a parada no mecânico.

Chegando em Palermo, nos hospedamos num hostel que buscamos na hora pelo Hostelworld. Ele é mais afastado do centro, mas tudo bem, pois estávamos de carro e distância não era o problema. Ficar mais longe deixou a hospedagem mais barata também.

Ficamos no Youth Hostel, conhecido como albergue da juventude, que foi como 14 euros para cada mais 5 euros de uma carteirinha de tivemos que fazer, pois descobrimos lá que somente sócios podem ficar nos YHA pelo mundo. Não esperávamos gastar esses 5, mas vimos como algo bom para as futuras viagens, já que a rede tem em muitos lugares.

No 2º dia passeamos por Palermo. Como era domingo, não tinha muita coisa aberta, então caminhamos pela cidade, vimos os prédios mais importantes, visitamos a Catacombe dei Cappuccini que é mesmo bem macabra e também comemos algumas comidas típicas de rua super baratas, como a arancina, a milza e a panelle, em um boteco bem famoso, a Focacceria Franco u Vastiddaru.

Parece coxinha, mas é a arancina, um bolinho de arroz com mozzarella e manteiga

Dormimos mais uma noite em Palermo e no 3º dia saímos cedinho de Palermo em direção ao Vale dos Templos, na cidade de Agrigento. Nessa zona arqueológica tem um complexo de templos gregos, que é uma das principais atrações da Sicília. Foi um passeio que nos surpreendeu bastante e vale muito a pena! Paga-se 10 euros para entrar. Passamos a manhã lá e seguimos para Catânia, onde chegamos de noite.

Em Catânia tivemos uma surpresa incrível! A cidade estava se preparando para a festa de Sant’Agata, a maior festa religiosa da Sicilia e que acontece lá! Fomos recebidos com fogos de artíficio e muito movimento na rua. Nem sabíamos de nada disso, foi apenas um coincidência estarmos lá nesse período e esse momento nos marcou bastante. A cidade é linda de um jeito diferente, meio caótico, com construções antigas e uma iluminação baixa e bem charmosa que vem das luminárias antigas. Catânia tem toda uma parte histórica e imponente que se mistura com uma vibe mais cosmopolita.

Euzinha na praia de pedras vulcânicas com o Castello Aci ao fundo

Achamos um hostel por 9 euros, o City In, bem no centro da cidade, encostado no Castello Ursino, então deixamos nossas coisas e saímos para curtir a noite em um dos bares meio hipsters da cidade. De todos os lugares que fomos na Sicília, Catânia, pra mim, foi o mais alegre, divertido e jovem! É algo entre a decadência envolvente de Roma e a descontração de Berlim.

Via Penninello, onde tem os bares mais hipsters que encontramos na cidade

Na manhã do 4º dia decidimos ver de perto o Monte Etna, que é bem próximo de Catânia. Quando estávamos na estrada indo de Agrigento para Catânia, chegamos a avistar o vulcão de longe e vimos até a fumacinha que saía dele. Ficamos tão empolgados com aquela visão que enfiamos na cabeça que devíamos chegar pelo menos no pé do monte, mesmo que não fôssemos subir, já que era super caro para fazer esse passeio, algo como 60 euros. Como estávamos de carro, fomos por conta até onde dava.

Dirigir no Brasil é bem diferente de dirigir na Europa, principalmente porque existem exigências que jamais exisitiriam num clima tropical. Como mencionei, alguns trechos pedem a corrente no pneu e, mesmo se não estiver com neve na estrada, se você for parado e não tiver a corrente no porta-malas, pode ser multado. Nós não tínhamos, então estávamos um pouco receosos de continuar subindo até o Etna, onde a chance de ter neve era bem alta.

Fomos até a última cidade próxima do Etna, a cidade de Nicolosi, subimos um pouco mais a montanha e ficamos ali mesmo, numa estrada deserta, contemplando o enorme vulcão ativo e nevado. Não gastamos nada além da gasolina, foi seguro e bem legal! No mesmo dia ficamos sabendo que houve um pequeno terremoto no Etna e ele teve que ser evacuado. Ou seja, ainda demos sorte!

Etna e sua fumacinha saindo

No mesmo dia, seguimos para Taormina, uma praia bem famosa da Sicília e lugar de veraneio dos gringos e italianos endinheirados, mas onde também tem o Teatro Antico – um anfiteatro grego do século III a.C. e que vale muito a pena visitar! A entrada é 10 euros.

Meu namorado tomando um sol no Teatro Antico de Taormina

A cidade, no geral, me pareceu meio fake, bem pega-turista como é Veneza, mas isso não exclui a beleza dela. Como fica na encosta de uma montanha, a vista para o Mar Jônico é maravilhosa! O clima boêmio da cidadezinha também é bem agradável, mas achei que é mais um lugar para passar a tarde mesmo, a não ser no verão,  pois aí é possível aproveitar a praia! Olha a cor do mar!

Mar Jônico em Taormina

No fim do dia fizemos nosso caminho de volta. De Taormina, subimos até Messina, pegamos a balsa, cruzamos para a Vila de San Giovanni, e subimos de volta até nossa cidade, Sapri.

Quanto gastamos 

Valeu super a pena!

Com conserto de pneu, pedágios, alimentação, 3 noites de hospedagem, passeios turísticos pagos, balsa e gasolina, gastamos em torno de 250/300 euros cada um para os 4 dias de viagem.

Eu considero esse valor bem ok para conhecer 5 cidades (além de outras pequenininhas que não citei no texto) de uma forma rápida e prática, sem ter que depender de horários de trens e ônibus e toda essa logística que às vezes atrapalha os planos e até nos faz perder um dia que poderíamos aproveitar conhecendo uma cidade.

Portanto, se você estiver disposto a dirigir, recomendo que alugue um carro, o que vai custar em torno de 30 a 50 euros – depende da quantidade de dias. É uma experiência muito legal para ter mais liberdade de movimento e poder descobrir coisas novas pelo caminho. Fica aí uma forma diferente de se aventurar pela Itália!

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