“Lá é muito perigoso!”. Essa frase não foi só dita por várias pessoas a mim, mas estava escrita até mesmo em um guia da Itália que uma vez li para saber mais sobre Nápoles. Sempre me disseram que Nápoles era perigosa, que não tinha nada para ver, que não havia razão para conhecer. Isso eu ouvi de brasileiros e também de italianos.

Quando fui à Pompéia para conhecer as ruínas causadas pelo vulcão Vesúvio, passei por Nápoles e sequer pisei na cidade, pois estava contaminada por todas as más impressões de outras pessoas. Impressões muitas vezes baseadas no que apenas ouviram falar. Mas, agora moro no sul da Itália e não tem como fugir de Nápoles. Num fim de semana qualquer fui conferir se lá é realmente um dos lugares mais perigosos da Itália.

Medo Infundado?

Saindo da estação de metrô Municipio, tive a primeira surpresa: um castelo imenso no meio de uma avenida caótica. O Castel Nuovo, de 1279, é realmente impressionante. Ao seu redor, encontram-se prédios no estilo neoclássico, além do movimento dos carros e das vespas apressadas. No dia que cheguei em Nápoles, fiz o free walking tour e pude ter noção de toda a bagunça e energia de Nápoles.

Me hospedei em um hostel, cujo dono, embora não fosse napolitano, era do sul da Itália e apaixonado pela cidade. Giovanni dedicou algumas horas do seu dia para desmistificar a cidade. Além de me contar a história de Nápoles, também falou um pouco sobre de onde surgiu toda a fama de insegurança. Policial aposentado, Giovanni agora ocupa o tempo cuidando do seu hostel, levando uma vida mansa e cercada de jovens do mundo todo.

Para acabar com o medo dos hóspedes, ele segue o mesmo protocolo com cada novo visitante: senta à mesa, abre um mapa, um livro velho e rasgado sobre Nápoles, e explica desde a origem da cidade até os problemas urbanos atuais. Segundo estatísticas que ele faz questão de mostrar e explicar, a cidade é menos perigosa que Milão, Roma e até Florença. Estupro e outras violências contra mulher, segundo os dados que ele tinha, eram raros. “Aqui é mais perigoso para homem do que para mulher”, diz.

Giovanni acredita que o medo das pessoas é infundado, já que a única coisa que sabem sobre a cidade é que existe uma máfia. “Se você conhecer uma cidade grande que não tem crime organizado, pode me ligar e dizer que eu estava errado”. Para ele, a máfia napolitana representa o menor dos problemas da cidade e as pessoas não deveriam usar a Camorra como desculpa para conhecer Nápoles. “O crime organizado aqui já perdeu a força que tinha”, afirma.

A Camorra ainda vive

Infelizmente, Giovanni estava errado ao dizer que a Camorra não representa um perigo. A presença da organização ainda tem grande influência na criminalidade na cidade. O grupo mafioso surgiu no século XIX em Nápoles e estima-se que hoje seja comandada por cerca de 110 família e mais de 7 mil afiliados. As atividades da Camorra vão do contrabando de cigarros e do tráfico de drogas à fraude na União Europeia.

De acordo com o Rapporto sulla criminalità e la sicurezza a Napoli (Relatório sobre criminalidade e segurança em Nápoles), em 2016, a taxa de crimes violentos para 100 mil habitantes de Nápoles — com base em determinados tipos de crimes, tais como atentados, massacres, assassinatos, infanticídio, tentativa de homicídio, homicídio culposo, lesão intencional, roubo, estupro e sequestro — se sobressai por causa dos conflitos da máfia, ou seja, são crimes muitas vezes cometidos contra quem está envolvido com a organização criminosa — o que não deixa de ser preocupante.

Nápoles não é o inferno na terra

O Rapporto sulla criminalità e la sicurezza a Napoli (Relatório sobre criminalidade e segurança em Nápoles) também revelou que a taxa média do índice de criminalidade metropolitana da cidade era de 4.426 crimes por 100 mil habitantes, enquanto Milão, Bolonha, Turim têm respectivamente 9.118, 7.411 e 7.044. Ainda de acordo com informações do relatório, Nápoles está em último lugar no ranking de registros de violência sexual contra mulheres. A cidade está atrás de Milão, Bolonha e Florença. Turim, ao norte da Itália, é a cidade que mais apresenta casos de estupro.

Analisando as taxas de diversos tipos de crime em Nápoles e comparando-as com outras áreas metropolitanas, o resultado é que, para muitos crimes, como roubo de casas e lojas, furtos, assaltos, crimes contra a pessoa, lesões corporais, crimes não convencionais — como clonagem de cartões bancários, phishing, fraude na internet, Nápoles ocupa cada vez mais as últimas posições do ranking nacional.

O relatório de 2015 do Overseas Security Advisory Council (OSAC) sobre a segurança em Nápoles afirmou que os crimes de rua, isto é, furtos e assaltos, não costumam ser violentos. Ou seja, é a situação que encontramos em outras grandes cidades da Europa, como Barcelona e Paris. A orientação dada aos turistas em Nápoles não é diferente da que é dada em qualquer outra grande metrópole: evitar exibir itens de valor na rua e não andar por ruas pouco movimentadas à noite.

“Vedi Napoli e poi muori”

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A expressão italiana significa literalmente “Veja Nápoles e depois morra”, e os apaixonados pela cidade usam e abusam dessa frase. Para mim, Nápoles foi a cidade grande que mais me impressionou na Itália. Eu sempre fui fã de Roma, tendo visitado cerca de 3 vezes. Porém, Nápoles tem uma energia e um movimento contagiante. À noite, os bares do centro estão sempre cheios de pessoas de todas as idades.

Cada rua revela uma surpresa. Se entranhando nas vielas do Quartieri Spagnoli, você vivencia a cidade de verdade, com toda sua beleza e com todas as suas falhas — e essa é uma experiência única. A capela de Sansevero é imperdível, com obras que, segundo os napolitanos, “guardam mistérios”. Não bastasse tudo o que há para ver em cima do asfalto, ainda tem uma cidade subterrânea, que está debaixo da terra desde 470 a.C.. E se for pouco, ainda tem o Castel dell’Ovo, um castelo ilhado no oceano.

Para uma vista panorâmica, há também diversos mirantes na parte alta da cidade. E quando você acha que já se surpreendeu o suficiente, descobre que tem uma cidade submersa nas águas que banham a costa de Nápoles. Além de tudo isso, é claro que não podemos esquecer das incontáveis pizzerias que fazem a verdadeira pizza italiana. A Gino Sorbillo é considerada a melhor do mundo, de acordo com os próprios italianos.

E foi nessa mistura de experiências que descobri que Nápoles — apesar de tudo o que falam e da sujeira na rua, que é bem real — é um lugar incrível e que desperta ainda mais a vontade de fazer uma imersão na história e na cultura da Itália. Não posso deixar de concordar com o que Giovanni havia nos falado no nosso primeiro dia na cidade: “Se você quer conhecer a Itália, tem que conhecer Nápoles”.

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10 comentários

  • Bruna dezembro 1, 2016   Responder →

    Oi Bru! Sinceramente, Napoles foi uma das cidades que menos curti na Itália – talvez pq eu me incomode um pouco com caos e barulho! A cidade é suja pra caramba, mas apesar disso há lugares bonitos pra se conhecer e muita história pra ouvir. E falando em ouvir, tinha ouvido falar que a cidade era perigosa, mas não me senti insegura em nenhum momento. Bjs.

    • Bruna Caricati dezembro 2, 2016   Responder →

      Oi, Bru! É um lugar com muita história, não é? Nápoles sofre há anos de problemas com o lixo urbano e, sem dúvida, isso prejudica a sua imagem – além de certa influência da máfia, mas ainda assim é um lugar muito rico e com muitas belezas escondidas. Um beijo e valeu pelo comentário!

  • beik Janeiro 8, 2017   Responder →

    Legal!

  • Leticia Janeiro 11, 2017   Responder →

    Eu amei conhecer para Napóles! Mesmo com toda bagunça e sujeira , foi uma cidade muito inspiradora pra mim, cheia de história. Eu sinto que só agora eu posso dizer que eu realmente conheci a Itália.

  • Aleana julho 10, 2017   Responder →

    Olá!
    Qual o nome do hostel que vc ficou?gostou?era perto de quê?Reservei um hotel bom no centro pela proximidade com a estação de trem mas to com medo pela localização.

  • Osmar outubro 23, 2017   Responder →

    Legal! Eu também fiquei no Giovanni (em 2014) e ele fez EXATAMENTE o mesmo discurso hahahah

    Eu acho Napoles mto bonito, mas acredito que toda a confusão que esta a cidade traz, de alguma maneira, gera mais medo de que uma cidade organizada, independente de realmente ser ou não mais perigosa. Sem contar com suas vielas estreitas e noites barulhentas.

    Mas eu jamais deixaria de ir pra lá se tivesse oportunidade novamente 🙂

  • Alessandro outubro 23, 2017   Responder →

    veja Napoles e depois morra! Orghulo napolitano apesar de tudo……a melhor cidade na Italia apesar de tudo,sim,apesar de tudo,nos temos,historia imperdivel,o lindo Vesuvio a melhor comida o mar o sol a felicidade na cara….apesar de tudo nos somos napolitano feliz de ser
    Alessandro de Napoles

  • Miguel outubro 31, 2017   Responder →

    Olá. Estou a pensar ir a Napoles e li o seu artigo com muita atenção. Gostaria, se for possivel, que me indicasse qual o hostel em que ficou e se a sua localização é boa.

  • Luiz Couto novembro 25, 2017   Responder →

    Pois é… fui visitar Nápoles, aluguel um carro em
    Roma e fui visitar essa cidade. Resolvi passar uma noite, no outro dia fui pegar o carro… CADÊ O CARRO ???
    ROUBARAM !!!
    Em um dia de Nápoles, já fui roubado, isso que moro no Rio de Janeiro hein ??? AZar ou Cidade perigosa mesmo ??
    Acho que não volto mais lá não !!!

  • Susu de Lisboa Janeiro 10, 2018   Responder →

    Excelente artigo Bruna. Vou visitar Napoles em Marco e ate agora os comentarios que recebi foram para ter cuidado que e uma cidade perigosa. Mas que canto e este no Mundo que todos tem medo? Depois de ler seu artigo tenho mais a certeza que vou adorar este pequeno canto no Mundo.

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