Quando viajo, leio muito. Leio muito mais do que quando estou em casa, fazendo nada. Acho que viajar me inspira a ler, ainda mais quando passo muito tempo em avião, trem, em rodoviárias e até mesmo antes de dormir em um quarto cheio e barulhento de um hostel.

Nos últimos tempos, muitos livros entraram para a lista dos meus favoritos por terem sido ótimas companhias em viagens. Ah, e não me refiro aos clássicos livros de viagens, como On the road e Na natureza selvagem. Aqui vão os livros que mais gostei, um pouco menos óbvios, e que recomendo para serem lidos durante uma viagem.

Decidi mostrar os livros através de algumas frases e trechos que me marcaram. Para ler a resenha e saber sobre o que trata cada livro, clique no título.

Arrecife, de Juan Villoro

Toda espécie tem seus remédios para o desespero: os cavalos se atiram num desfiladeiro, as baleias encalham na praia, o ser humano faz as malas.

Ioga para quem não está nem aí, de Geoff Dyer

Pessoa estava certo: não tem sentido ir a Constantinopla para ver um pôr-do-sol; Eles são o mesmo em todo o mundo. Mas você o faz de qualquer maneira; Você vai para Constantinopla e Phnom Bakheng e em qualquer outro lugar, e enquanto você está lá você, você vê o pôr do sol. Ao viajar, de fato, assistir ao pôr-do-sol dá ao dia um propósito e significado que pode faltar. Mesmo assim, poucas coisas parecem mais idiotas do que esperar em um pôr do sol. Esperar o pôr do sol se torna uma atividade, um exercício pendente. A ociosidade, não fazendo nada, é elevado ao nível do propósito agudamente focado. A expectativa se torna uma forma de esforço sustentado. Você espera que isso aconteça mesmo que isso vá acontecer de qualquer maneira.

O rio inferior, de Paul Theroux

Ninguém estava interessado em Malabo – era por isso que as pessoas na aldeia devem ter suspeitado de ele ter um motivo mais profundo para visitar lá. Ele queria algo deles – por que mais ele faria todo esse caminho para viver em uma cabana? O altruísmo era desconhecido. Quarenta anos de ajuda e instituições de caridade e ONGs lhes ensinaram isso. Os estrangeiros egoístas somente brincaram com a África, então a África os puniu por isso.

Diários de bicicleta, de David Byrne

As cores nacionais da Alemanha, não as da bandeira, mas as cores mais vistas por aqui, são o amarelo, em geral de um tom baço e sulfuroso; o verde, pendendo mais para uma tonalidade baça de floresta; e o marrom, que vai de um bege amarronzado até um tom forte cor de terra. Essas cores terrosas quentes e suas combinações são as mais usadas em prédios, roupas e acessórios. Para mim, elas representam o germanismo — uma identidade nacional e cultural. Isso é um estereótipo nacional, claro, mas me faz pensar: toda cultura tem sua paleta de cores? Antigamente, a maioria dos pré- dios era feita com materiais da própria região e, como resultado, as construções de Londres são em geral feitas de tijolos vermelhos, enquanto as de Dallas de tijolos beges.

Zen e a arte da manutenção de motocicletas, de Robert M. Pirsig

De carro a gente está sempre confinada, e como já estamos acostumados, nem notamos que tudo que vemos pela janela não passa de mais um programa de televisão. Sentimo-nos como um espectador, a paisagem fica passando monotonamente na tela, fora do nosso alcance.

Já na motocicleta, não há limites. Fica-se inteiramente em contato com a paisagem. A gente faz parte da cena, não fica mais só assistindo, e a sensação de estar presente é esmagadora.

Os suicidas do fim do mundo, de Leila Guerriero

Na Patagônia, a agressão natural da paisagem e a solidão histórica aumentam a possibilidade de mal-estar, gerando este tipo de saída. Isto repete-se noutras localidades com falta de enraizamento, falta de qualidade nas relações. Parece que tudo é erótico, agressivo e começam a dar-se relações cruzadas, sem capacidade de oxigenação. (…) O que também ficou claro é que quando não se tem uma estrutura que ofereça inserção e reconhecimento, uma legitimação da auto-estima através do amor e da valorização, numa estrutura onde estão todos apoiados muito fragilmente e numa relação social com alto nível de desemprego, surgem sintomas violentos, gera-se silêncio, frieza, e chega-se a uma situação de perda de sentido da vida, de reivindicação de atenção através de condutas auto-agressivas muito fortes, como o alcoolismo ou o suicídio, e a algo que se poderia chamar melancolia social.

O céu que nos protege, de Paul Bowles

A morte está sempre a caminho, mas o fato de você não saber quando vai chegar parece depreciar a finitude da vida. É essa terrível precisão que nós tanto detestamos. Mas, por não sabermos, passamos a pensar na vida como um poço inesgotável. No entanto, as coisas acontecem só um certo número de vezes e um número muito pequeno na verdade. Quantas vezes mais você se relembrará uma certa tarde de sua infância, alguma tarde que é tão profundamente parte do seu ser que você não consegue nem conceber sua vida sem ela? Talvez quatro ou cinco vezes mais. Talvez mesmo nunca. Quantas vezes mais você vai ver a lua cheia nascer? Talvez vinte. E, no entanto, tudo parece ilimitado.

No ar rarefeito, de Jon Krakauer

No entanto, existem homens para quem o inatingível tem uma atração toda especial. Em geral não são especialistas: têm ambições e fantasias fortes o bastante para afastar quaisquer dúvidas que homens mais cautelosos porventura pudessem ter. Determinação e fé são duas grandes armas. Na melhor das hipóteses, são considerados excêntricos; na pior, são tomados por loucos.

Milagre nos Andes, de Nando Parrado

Era impressionante: apesar de todo o seu poder, as montanhas não eram mais fortes do que o meu apego a papai. Elas não conseguiam destruir minha habilidade de amar. Tive um momento de calma e clareza, e dentro dessa clareza de pensamento, descobri um segredo simples e aterrador: a morte tem um oposto, mas ele não é apenas a vida. Não é a coragem, a fé ou a vontade humana. O oposto da morte é o amor. Como eu não percebera isso antes? Como alguém deixa de perceber isso? O amor é nossa única arma. Somente o amor pode transformar uma mera vida num milagre e retirar significados preciosos do sofrimento e do medo.

 

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